segunda-feira, 19 de julho de 2010

O Brasil em foco


Não são poucos os críticos da atual gestão do Itamaraty, tanto no Brasil como fora - obviamente por motivos diferentes. Isso porque são poucos os que chegam a compreender as dimensões que as transformações globais estão tomando.
A posição do país lá fora já vinha se alterando nos últimos anos, enquanto o país vinha galgando espaço de ação no terceiro mundo, com foco na América Latina e na África. Era isso o que se constatava com o envio de ajuda humanitária ao Haiti, antes ainda do terremoto, com o papel de mediador assumido nas crises entre Colômbia e Equador e mesmo entre as províncias bolivianas, motivada pela alteração do repasse de uma porcentagem do imposto sobre hidrocarbonetos para os mais pobres. Também são exemplos vistosos a criação, nos últimos oito anos, de embaixadas e consulados brasileiros nos dois continentes, 68 ao todo, e a diversificação de nossos parceiros comerciais. O que se nota é que há um foco no terceiro mundo, e isso não agrada a muitos, principalmente por aqui.
Ao mesmo tempo em que tenta conciliar a ajuda ao desenvolvimento de outros países com seus próprios interesses comerciais e políticos, o Brasil tem buscado participar mais ativamente de importantes discussões globais, como a das novas metas de emissão de carbono - área na qual, inclusive, despontamos - e a da paz no Oriente Médio. E neste sentido a assinatura do acordo sobre enriquecimento de urânio do Irã, mediado por Brasil e Turquia, é, com certeza, um marco histórico.
A mídia brasileira anunciou com todas as letras a "falência do acordo", uma vez que ele não impediu o uso de sanções contra o país ameaçador da paz global, o que está tão longe da verdade quanto o Brasil do Oriente Médio (geograficamente). Em primeiro lugar, o acordo não foi completamente ineficaz, pois as sanções acabaram sendo bem mais brandas do que gostariam os EUA, país acostumado à diplomacia do porrete, que autoritariamente se sobrepõe ao outro, utilizando o diálogo apenas para garantir a manutenção de seus interesses, nunca para negociar efetivamente. E hoje o Brasil começa a ser requisitado para participar de diálogos naquela região, como ocorre entre Síria e Israel.
Há dez anos seria muito difícil imaginar situação parecida, pois durante a maior parte do século XX nossa diplomacia foi totalmente subserviente aos interesses norte-americanos ou dos países mais ricos. Digo em grande parte pois aquele século, em seu início, foi palco de uma das mais expressivas atuações brasileiras no exterior.
Em 1907, quando a ONU não era sequer um embrião, ocorreu nos Países Baixos a 2a Conferência da Paz, convocada pelo Czar Nicolau II por inspiração do presidente Theodore Roosevelt, na qual compareceram representantes de 44 estados soberanos, "praticamente todos os governos autônomos do mundo de então". O enviado brasileiro foi Ruy Barbosa, o qual surpreendeu a todos ao se pronunciar fluentemente em diversos idiomas e apresentar propostas impressionantemente arrojadas, como a diplomacia da paz e a instituição da igualdade jurídica entre as nações, hoje um postulado do direito internacional. Graças ao destaque obtido, Ruy retornou da Europa com o apelido de Águia de Haia, cidade onde se realizou a conferência. Porém, sete anos mais tarde o velho continente entrou em guerra. Será que também classificaram o ato como derrota da diplomacia brasileira?
Uma das metas do Itamaraty é conquistar um assento definitivo no Conselho de Segurança da ONU, e isso não é novidade pra ninguém. Mas não faltou quem dissesse que o Brasil ia na contramão do objetivo ao negociar com o Irã, enquanto o restante do conselho buscava as sanções imediatamente. Por isso concluo com reflexão do chanceler Celso Amorin sobre o fato: vale a pena ter uma cadeira no conselho se for só para dizer amém ao que propõem as potências, ou seria mais interessante o Brasil colocar em prática sua diplomacia da paz, contribuindo originalmente com as discussões globais?

Material relacionado:

Le Brésil de Lula sur tout les fronts (Editorial do Le Monde sobre Lula e a política externa brasileira)
Speak softly and carry a blank cheque (matéria sobre os programas de ajuda externa do governo Lula, publicada na Economist)