
Sim, ele foi eleito. E isso não me surpreendeu nem um pouco. Aliás, me pareceu um fato bem previsível desde a primeira vez que ouvi “ô, candidato lindo!”. Mas o processo todo merece um olhar mais atento em seus detalhes, a começar pela estratégia fácil da base aliada do governo e culminando num alastramento de opiniões baseadas em lugares-comuns.
Não sei como surgiu a ideia da candidatura do Tiririca, se a iniciativa partiu dele mesmo ou se foi convidado pelo partido. Mas com certeza os olhos dos dirigentes do PR (Partido da República) devem ter brilhado com o projeto. E assim bastou menos de uma semana de campanha para que a candidatura do palhaço loiro caísse na boca do povo, fosse pelo inconformismo dos que achavam “um absurdo” uma figura tão ridícula querer participar de um meio reservado estritamente para gente séria e engravatada; ou fosse por aqueles que imediatamente já abriram seu voto para ele, reforçando o bordão mais comentado dessa eleição: “pior que tá não fica!”. Essas duas tendências de opiniões explicam muito de nossa sociedade e processo político atuais.
Chamemos o primeiro grupo de “presunçosos”: aqueles que se acham muito melhores do que a sociedade em que vivem, que prefeririam mil vezes ter nascido nos EUA, onde such a thing would never happen, e que provavelmente devem estar contando os dias para esse metalúrgico-analfabeto-sem-dedo deixar a presidência.
É claro que faço uso aqui apenas de minha intuição, mas arriscaria dizer que esse grupo é formado majoritariamente por pessoas oriundas da classe média alta – gente que nunca votou no PT, mas que afirma que “esperava mais transformação social” do governo Lula, que no fundo ele só “deu continuidade ao trabalho duro do FHC” e “contou com a sorte” para o Brasil ir tão bem em seus mandatos, e que nunca vai votar no PT por causa do “mensalão, um absurdo de roubalheira! (e justo de um partido do qual a gente esperava tanto...)”.
Bom, não é muito difícil entender a mentalidade da classe média alta: ela se concentra no sul/sudeste do Brasil e ignora qualquer forma de vida, existência, organização ou realidade ao norte do Estado de São Paulo que não esteja associado às suas exóticas férias de pescaria, contato com a natureza ou viagens de formatura. Ainda que sua situação financeira tenha melhorado nos últimos oito anos, não foi o suficiente para que ela emergisse à classe alta de fato, de onde meio que inconscientemente tira seus valores e visão de mundo, mantendo seus sonhos de ganhar aquele cargo de gerência ou supervisão, para ter contato direto com os diretores, comprar um carro do ano e um apartamento minúsculo no litoral e então se gabar com os subalternos. Acabou assim se constituindo em uma espécie de “elite da classe média”, fixada em sua posição social e cansada de “carregar uma África nas costas”. Por isso a eleição de Tiririca para eles representou apenas um óbvio banho de terceiro-mundismo.
Um pouco mais complicado é o segundo grupo, o dos “surfistas”. Chamo assim porque ou vão na onda da maioria, ou inconscientemente criam uma onda para a maioria. Estes compõem um grande desafio de análise por serem o setor da sociedade brasileira em transformação mais intensa, a classe média baixa, que mistura novos elementos oriundos de faixas mais pobres que agora emergem e juntam-se a elementos já acostumados às dificuldades da classe social em que se encontram.
No caso desse segundo grupo, tão heterogêneo, houve, acredito, diversas razões para se votar em Tiririca. Citaria: o voto de “protesto”, quando o eleitor quer mostrar sua insatisfação com a cena eleitoral do país; o voto “piada”, quando o eleitor mostra seu compromisso com a “comédia” e defende sua opção arrancando risos dos amigos; e uma parcela que acredito ser bem pequena, que vota motivada pela “inovação” e pelo “inusitado” na política brasileira, de certa forma confirmando o “pior que tá não fica!”.
E o pior é que esse bordão hoje em dia nem tem o mesmo apelo que teria há, digamos, dez anos. Isso porque lenta e gradualmente a estrutura política brasileira vai se aperfeiçoando, assim como a sociedade. É claro que nosso Congresso ainda conta com velhos oligarcas, ainda existe compra de votos e escândalos de lobby e corrupção vez por outra aparecem. Mas é inegável que a cada renovação a instituição fica mais séria e, democraticamente, os velhos fantasmas vão desaparecendo. A lei da ficha limpa (à qual tenho muitas críticas e ressalvas) mostra certo amadurecimento de nossas instituições. E a imprensa tem liberdade total para criticar o governo e falar o que lhe der na telha, muitas vezes até de forma inconsequente e sem fundamentos (por isso digo que o que a imprensa tem hoje no Brasil não é mera liberdade, é sim muito poder e interesse, daí a necessidade de um marco regulatório). Por tudo isso acho que o grupo que vota em Tiririca para “protestar” está, no mínimo, desatualizado.
Aqueles que votam em Tiririca pela piada podiam ficar por aí bancando os engraçadões e depois votar em qualquer outro candidato, já que o voto é secreto e ninguém vai ficar querendo confirmar se eles levaram ou não a piada ao extremo da urna. Quanto a esses não há muito o que ser dito. Simplesmente não têm interesse pelo processo. Já os que votam pelo “inusitado” até que ganham um pouco do meu respeito, simplesmente por não acharem que uma profissão como a de palhaço possa se constituir em empecilho para a carreira pública, mas o perdem ao corroborar o bordão desatualizado da campanha.
O que grande parcela do eleitorado de Tiririca e os críticos “presunçosos” têm ignorado é que ainda que a campanha (que ganhou comentário no blog do Washington Post) mostrasse o Tiririca, quem foi eleito foi Francisco Everaldo Oliveira e Silva: um homem de origem humilde, vindo da região mais pobre do país, com experiência de causa em problemas sociais, e que também é um emergente e sabe o peso da influência de ricos e poderosos na política, ainda por cima tem traquejo público, e que agora eleito arrastará mais 4 ou 5 candidatos para a bancada do governo. Mas acima de tudo é um cidadão brasileiro como qualquer outro, que pode votar e ser votado (desde que comprove que não é analfabeto, porque aí a discussão é outra, mais técnica).
É sabido que há uma linha tênue, que hoje é muito mais difícil de ser notada, que separa o proletariado do sub-proletariado: sua capacidade de organização política e reivindicação democrática, o que poderia se estender a compreender quem é de fato o candidato e quais os impactos reais de sua eleição, saber dissociar o personagem da pessoa e ter consciência de que nossa legislação é bem menos preconceituosa do que nossa sociedade. E nesse caso tanto os eleitores de Tiririca quanto seus críticos sofrem do mesmo mal: o apego inocente a uma imagem que não condiz com a realidade.




