quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Tiririca: os extremos da classe média se encontram no apego à inocência


Sim, ele foi eleito. E isso não me surpreendeu nem um pouco. Aliás, me pareceu um fato bem previsível desde a primeira vez que ouvi “ô, candidato lindo!”. Mas o processo todo merece um olhar mais atento em seus detalhes, a começar pela estratégia fácil da base aliada do governo e culminando num alastramento de opiniões baseadas em lugares-comuns.
Não sei como surgiu a ideia da candidatura do Tiririca, se a iniciativa partiu dele mesmo ou se foi convidado pelo partido. Mas com certeza os olhos dos dirigentes do PR (Partido da República) devem ter brilhado com o projeto. E assim bastou menos de uma semana de campanha para que a candidatura do palhaço loiro caísse na boca do povo, fosse pelo inconformismo dos que achavam “um absurdo” uma figura tão ridícula querer participar de um meio reservado estritamente para gente séria e engravatada; ou fosse por aqueles que imediatamente já abriram seu voto para ele, reforçando o bordão mais comentado dessa eleição: “pior que tá não fica!”. Essas duas tendências de opiniões explicam muito de nossa sociedade e processo político atuais.
Chamemos o primeiro grupo de “presunçosos”: aqueles que se acham muito melhores do que a sociedade em que vivem, que prefeririam mil vezes ter nascido nos EUA, onde such a thing would never happen, e que provavelmente devem estar contando os dias para esse metalúrgico-analfabeto-sem-dedo deixar a presidência.
É claro que faço uso aqui apenas de minha intuição, mas arriscaria dizer que esse grupo é formado majoritariamente por pessoas oriundas da classe média alta – gente que nunca votou no PT, mas que afirma que “esperava mais transformação social” do governo Lula, que no fundo ele só “deu continuidade ao trabalho duro do FHC” e “contou com a sorte” para o Brasil ir tão bem em seus mandatos, e que nunca vai votar no PT por causa do “mensalão, um absurdo de roubalheira! (e justo de um partido do qual a gente esperava tanto...)”.
Bom, não é muito difícil entender a mentalidade da classe média alta: ela se concentra no sul/sudeste do Brasil e ignora qualquer forma de vida, existência, organização ou realidade ao norte do Estado de São Paulo que não esteja associado às suas exóticas férias de pescaria, contato com a natureza ou viagens de formatura. Ainda que sua situação financeira tenha melhorado nos últimos oito anos, não foi o suficiente para que ela emergisse à classe alta de fato, de onde meio que inconscientemente tira seus valores e visão de mundo, mantendo seus sonhos de ganhar aquele cargo de gerência ou supervisão, para ter contato direto com os diretores, comprar um carro do ano e um apartamento minúsculo no litoral e então se gabar com os subalternos. Acabou assim se constituindo em uma espécie de “elite da classe média”, fixada em sua posição social e cansada de “carregar uma África nas costas”. Por isso a eleição de Tiririca para eles representou apenas um óbvio banho de terceiro-mundismo.
Um pouco mais complicado é o segundo grupo, o dos “surfistas”. Chamo assim porque ou vão na onda da maioria, ou inconscientemente criam uma onda para a maioria. Estes compõem um grande desafio de análise por serem o setor da sociedade brasileira em transformação mais intensa, a classe média baixa, que mistura novos elementos oriundos de faixas mais pobres que agora emergem e juntam-se a elementos já acostumados às dificuldades da classe social em que se encontram.
No caso desse segundo grupo, tão heterogêneo, houve, acredito, diversas razões para se votar em Tiririca. Citaria: o voto de “protesto”, quando o eleitor quer mostrar sua insatisfação com a cena eleitoral do país; o voto “piada”, quando o eleitor mostra seu compromisso com a “comédia” e defende sua opção arrancando risos dos amigos; e uma parcela que acredito ser bem pequena, que vota motivada pela “inovação” e pelo “inusitado” na política brasileira, de certa forma confirmando o “pior que tá não fica!”.
E o pior é que esse bordão hoje em dia nem tem o mesmo apelo que teria há, digamos, dez anos. Isso porque lenta e gradualmente a estrutura política brasileira vai se aperfeiçoando, assim como a sociedade. É claro que nosso Congresso ainda conta com velhos oligarcas, ainda existe compra de votos e escândalos de lobby e corrupção vez por outra aparecem. Mas é inegável que a cada renovação a instituição fica mais séria e, democraticamente, os velhos fantasmas vão desaparecendo. A lei da ficha limpa (à qual tenho muitas críticas e ressalvas) mostra certo amadurecimento de nossas instituições. E a imprensa tem liberdade total para criticar o governo e falar o que lhe der na telha, muitas vezes até de forma inconsequente e sem fundamentos (por isso digo que o que a imprensa tem hoje no Brasil não é mera liberdade, é sim muito poder e interesse, daí a necessidade de um marco regulatório). Por tudo isso acho que o grupo que vota em Tiririca para “protestar” está, no mínimo, desatualizado.
Aqueles que votam em Tiririca pela piada podiam ficar por aí bancando os engraçadões e depois votar em qualquer outro candidato, já que o voto é secreto e ninguém vai ficar querendo confirmar se eles levaram ou não a piada ao extremo da urna. Quanto a esses não há muito o que ser dito. Simplesmente não têm interesse pelo processo. Já os que votam pelo “inusitado” até que ganham um pouco do meu respeito, simplesmente por não acharem que uma profissão como a de palhaço possa se constituir em empecilho para a carreira pública, mas o perdem ao corroborar o bordão desatualizado da campanha.
O que grande parcela do eleitorado de Tiririca e os críticos “presunçosos” têm ignorado é que ainda que a campanha (que ganhou comentário no blog do Washington Post) mostrasse o Tiririca, quem foi eleito foi Francisco Everaldo Oliveira e Silva: um homem de origem humilde, vindo da região mais pobre do país, com experiência de causa em problemas sociais, e que também é um emergente e sabe o peso da influência de ricos e poderosos na política, ainda por cima tem traquejo público, e que agora eleito arrastará mais 4 ou 5 candidatos para a bancada do governo. Mas acima de tudo é um cidadão brasileiro como qualquer outro, que pode votar e ser votado (desde que comprove que não é analfabeto, porque aí a discussão é outra, mais técnica).
É sabido que há uma linha tênue, que hoje é muito mais difícil de ser notada, que separa o proletariado do sub-proletariado: sua capacidade de organização política e reivindicação democrática, o que poderia se estender a compreender quem é de fato o candidato e quais os impactos reais de sua eleição, saber dissociar o personagem da pessoa e ter consciência de que nossa legislação é bem menos preconceituosa do que nossa sociedade. E nesse caso tanto os eleitores de Tiririca quanto seus críticos sofrem do mesmo mal: o apego inocente a uma imagem que não condiz com a realidade.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O Brasil em foco


Não são poucos os críticos da atual gestão do Itamaraty, tanto no Brasil como fora - obviamente por motivos diferentes. Isso porque são poucos os que chegam a compreender as dimensões que as transformações globais estão tomando.
A posição do país lá fora já vinha se alterando nos últimos anos, enquanto o país vinha galgando espaço de ação no terceiro mundo, com foco na América Latina e na África. Era isso o que se constatava com o envio de ajuda humanitária ao Haiti, antes ainda do terremoto, com o papel de mediador assumido nas crises entre Colômbia e Equador e mesmo entre as províncias bolivianas, motivada pela alteração do repasse de uma porcentagem do imposto sobre hidrocarbonetos para os mais pobres. Também são exemplos vistosos a criação, nos últimos oito anos, de embaixadas e consulados brasileiros nos dois continentes, 68 ao todo, e a diversificação de nossos parceiros comerciais. O que se nota é que há um foco no terceiro mundo, e isso não agrada a muitos, principalmente por aqui.
Ao mesmo tempo em que tenta conciliar a ajuda ao desenvolvimento de outros países com seus próprios interesses comerciais e políticos, o Brasil tem buscado participar mais ativamente de importantes discussões globais, como a das novas metas de emissão de carbono - área na qual, inclusive, despontamos - e a da paz no Oriente Médio. E neste sentido a assinatura do acordo sobre enriquecimento de urânio do Irã, mediado por Brasil e Turquia, é, com certeza, um marco histórico.
A mídia brasileira anunciou com todas as letras a "falência do acordo", uma vez que ele não impediu o uso de sanções contra o país ameaçador da paz global, o que está tão longe da verdade quanto o Brasil do Oriente Médio (geograficamente). Em primeiro lugar, o acordo não foi completamente ineficaz, pois as sanções acabaram sendo bem mais brandas do que gostariam os EUA, país acostumado à diplomacia do porrete, que autoritariamente se sobrepõe ao outro, utilizando o diálogo apenas para garantir a manutenção de seus interesses, nunca para negociar efetivamente. E hoje o Brasil começa a ser requisitado para participar de diálogos naquela região, como ocorre entre Síria e Israel.
Há dez anos seria muito difícil imaginar situação parecida, pois durante a maior parte do século XX nossa diplomacia foi totalmente subserviente aos interesses norte-americanos ou dos países mais ricos. Digo em grande parte pois aquele século, em seu início, foi palco de uma das mais expressivas atuações brasileiras no exterior.
Em 1907, quando a ONU não era sequer um embrião, ocorreu nos Países Baixos a 2a Conferência da Paz, convocada pelo Czar Nicolau II por inspiração do presidente Theodore Roosevelt, na qual compareceram representantes de 44 estados soberanos, "praticamente todos os governos autônomos do mundo de então". O enviado brasileiro foi Ruy Barbosa, o qual surpreendeu a todos ao se pronunciar fluentemente em diversos idiomas e apresentar propostas impressionantemente arrojadas, como a diplomacia da paz e a instituição da igualdade jurídica entre as nações, hoje um postulado do direito internacional. Graças ao destaque obtido, Ruy retornou da Europa com o apelido de Águia de Haia, cidade onde se realizou a conferência. Porém, sete anos mais tarde o velho continente entrou em guerra. Será que também classificaram o ato como derrota da diplomacia brasileira?
Uma das metas do Itamaraty é conquistar um assento definitivo no Conselho de Segurança da ONU, e isso não é novidade pra ninguém. Mas não faltou quem dissesse que o Brasil ia na contramão do objetivo ao negociar com o Irã, enquanto o restante do conselho buscava as sanções imediatamente. Por isso concluo com reflexão do chanceler Celso Amorin sobre o fato: vale a pena ter uma cadeira no conselho se for só para dizer amém ao que propõem as potências, ou seria mais interessante o Brasil colocar em prática sua diplomacia da paz, contribuindo originalmente com as discussões globais?

Material relacionado:

Le Brésil de Lula sur tout les fronts (Editorial do Le Monde sobre Lula e a política externa brasileira)
Speak softly and carry a blank cheque (matéria sobre os programas de ajuda externa do governo Lula, publicada na Economist)

terça-feira, 11 de maio de 2010

Tirando a poeira



Tudo bem, tudo bem.
Eu sei que esse blog ficou inativo por bastante tempo. Estava me dedicando a outras artes e ofícios e acabei deixando meus apontamentos político-sociais de lado.
Mas esse tempo acabou.
Aproveitando que estamos em ano eleitoral e de Copa do Mundo, vamos soprar o pó da prateleiro e tirar alguns esqueletos do armário. Alguns ainda com restinhos de carne e recendendo a cadáver... mas vamos lá.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Virada cultural: xixi, gente e cultura, tudo em abundância

Minha virada cultural começou com uma decepção: tive que fazer um servicinho pro meu trabalho e acabei não conseguindo pegar ingresso pro show de Arrigo Barnabé. Tudo bem. Já ando bem decepcionado com o mundo do trabalho.
Sem ingresso pra Clara Crocodilo, passei na casa de alguns amigos, encontrei um pessoal das antigas, matei saudades e saimos dispersos: alguns foram enfrentar a fila do teatro municipal - que, vale a pena registrar, poderia dar algumas voltas ao redor do próprio teatro - para o show de Egberto Gismonti. Como não queria arriscar meu precioso tempo de lazer parado, saí com um grupo pequeno em busca de atrações mais acessíveis.
Nossa primeira tentativa foi "Orquestra Sinfônica Municipal acompanhada por Jon Lord" na Av. São João às 18h10. Nunca tinha ouvido falar do tal Lord, mas até aí né?
Tudo começou muito bem. A gente estava meio longe do palco. A orquestrinha tava lá pa-pa-ra-ra-pa-pa quando, derrepente, eis que Jon Lord solta os acordes distorcidos de sua guitarra elétrica num misto de metal farofa com um fuzzion de bem baixa qualidade. Foi praticamente uma ordem de despejo.
Rumamos em direção à estação São Bento pelo Anhangabaú, procurando pelo palco dos djs de Hip Hop. Nos confundimos e acabamos ficando num palco que tocava black enquanto alguns animadores de festa tentavam organizar uma roda de dança. Foi até engraçado ver os animadores disputando um espacinho, tentando organizar a roda com a mendigália do vale, mas depois de dez minutos cansou, e aliado a isto, descubrimos que o palco do Hip Hop estava em frente ao Mosteiro São Bento.
Em nossa rápida passada pelo mosteiro, pudemos ver algo que se assemelhava com uma versão gorditcha da Negra Lee cantando com 3 dançarinos. Nada convidativo.
Próxima parada, Pátio do Colégio. Já passava das 22h quando Deus resolveu ouvir nossas preces e colocou um sonzinho maneiro pra tocar. Era o palco da rua Anchieta, que trazia os djs das baladas paulistanas. Pegamos o final da apresentação de Waltinho Abud, que foi um ótimo aquecimento, e engatamos um Daniel Ganjaman. Destaque para a mendiga mijada que com certeza alguém presenteou com uma balinha só pela comédia, coitada: tava lá dançando, dando piruleta e posando para fotos.
Alguns amigos telefonaram e marcamos de nos encontrar na Av. Rio Branco. Eu queria ver o Trio Mocotó, mas acabei desistindo em prol da maioria e fomos ver Marcelo Camelo na Av. São João. Ótimo show, ainda que assistido bem de longe. Longe até do Telão. De qualquer forma, Rob Mazureck apavorou no trumpete, isso deu pra ouvir bem. E como era unanimidade entre nós assistir o show do Instituto tocando Tim Maia Racional no mesmo lugar, achamos melhor esperar por lá mesmo. Só tentamos nos aproximar mais do palco.
Show do Instituto, além da empolgação do Racional, contou ainda com ótimas improvisações, principalmente do Kamau. O rapaiz mandou uma improvisada no final do show que, vou te dizer... Enfim, com certeza o ponto alto da minha noite.
Tinha uma gringa amiga nossa, inglesa, que tava toda derretida com o acontecimento, vendo aquele monte de gente andando junta, com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. É legal saber que um evento desse porte rola em São Paulo. Essa cidade é tão grande que imaginar que um evento cultural gratuito se arrisca a chamar tanta gente pras ruas (estimados 4 milhões), sei lá. Na verdade deve bem ser uma política pão e circo, ou melhor, circo e circo, do PSBD/DEM. Afinal, não seria melhor espalhar os shows pelo calendário e possibilitar mais ordeiramente o acesso das pessoas às atrações? Tanto que quem viu a cidade no domingo à tarde, quando a virada já tinha acabado, notou o estrago geral. O centro, cheio de lixo por todo lado, e o fedor do mijo disseminado no ar, nos dava a impressão de estarmos nas filmagens de Blindness. Mas é claro que o projeto todo vale a pena, principalmente em nome desse valor, que é a cultura.
Bom, fim do Racional, 4h da matina, pra mim já tava de bom tamanho. Fui pra casa de ônibus, tomei banho e dormi.
Acordei ao meio-dia, me preparei e fui a pé para o centro, acompanhado apenas por um amigo, mas com a promessa de encontrar os outros no show. Chegamos na Av. São João umas 14h20 e fomos pra frente, o mais próximo possível do palco. O lugar estava completamente lotado. Fiquei impressionado em ver tanta gente querendo assistir os Novos Baianos. Aliás, acredito que para muitos artistas, principalmente os mais velhos, como Arrigo Barnabé, que viu o Municipal lotado só para assistir o show de um álbum que ele lançou, sei lá, há uns 20 anos, deve ser muito gratificante.
Houve desencontros entre nosso grupo de amigos e, como a locomoção em meio à multidão estava quase impossível, acabei vendo o show só com dois amigos. E o que dizer? Os Novos Baianos continuam excepcionais. Gostei muito quando tocaram uma música que eu até então desconhecia mas que chama "Colégio de aplicação", e a letra diz: "No céu, azul, azul fumaça / Saindo dos prédios para as praças / Uma nova raça". Tocante.
E, acabando o show, ainda conseguimos ver os franceses do Mecánique Vivante fazendo ecoar suas sirenes pelo centro velho, com suas sombras gigantes projetadas nos prédios ao lado. Lindo. E daí acabou né.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Campanha de arrecadação de verba para Revista Ocas

A Ocas é um projeto sócio-editorial que visa dar alguma qualidade de vida aos moradores de rua. A revista é vendida em vários lugares da cidade, custa R$ 3,00, dos quais R$ 2,00 vão para o vendedor morador de rua. Infelizmente o projeto não tem financiamento, e sobrevive de doações da sociedade civil.
Em solidariedade a esse projeto que tem transformado a vida de tantas pessoas estou divulgando a carta de pedido de doações aqui no blog.
Se você pode, faça uma doação e divulgue essa campanha:

A OCAS, que desde 2002 proporciona à população em situação de risco social meios para alcançar uma vida digna, como já noticiamos em dezembro de 2008, continua num período de entressafra de apoios e ainda necessita da sua ajuda para não interromper as atividades.

Agradecemos a todos que já colaboraram e reforçamos que toda contribuição será bem-vinda. Se puderem repassar esta mensagem a seus amigos e conhecidos, talvez tenhamos mais chance de sair da desconfortável situação financeira, afinal, quanto mais pessoas conhecerem o projeto, mais chances teremos de receber apoio.

Quando iniciamos a campanha de arrecadação, fixamos um valor de R$ 22 mil, com prazo até 5 de janeiro, porque estávamos numa corrida contra o tempo para evitarmos endividamento e juros bancários. Infelizmente não conseguimos alcançar nossas metas e tornamos a pedir ajuda de todos.

Continuamos otimistas, crendo que a partir de abril parcerias se renovarão e novas surgirão.

Até a presente data, contabilizando entradas e saídas para pagamento de despesas de praxe, já foram levantados R$ 8.535,90, valor ainda insuficiente para cobrir todas as despesas até abril. Apesar das dificuldades a edição de janeiro/fevereiro entrará em circulação nos próximos dias de janeiro.

Para doar qualquer quantia, gentileza fazer depósito em nome da:

Organização Civil de Ação Social
CNPJ n.º 04.847.090/0001-01:
Banco Itaú S/A.
Agência n.º 0187
Conta-corrente n.º 44.013-6

O valor arrecadado é atualizado semanalmente no blog da revista.

Além de doações, as pessoas podem contribuir comprando a revista dos vendedores, no Rio de Janeiro ou em São Paulo. Se houver dúvidas sobre como adquiri-las escreva para ocas@ocas.org.br solicitando informações.

Cerca de 1500 pessoas já atuaram como vendedores da revista Ocas’’ e de outras atividades de apoio que mantemos e os resultados foram tão positivos que a maioria fortaleceu a auto-estima, retomou a vida no ambiente familiar, voltou aos estudos e muitos até conquistaram um emprego, graças aos novos contatos que fizeram. Contribua você também com um projeto que preza por uma sociedade justa, democrática e participativa.

Nós, voluntários e vendedores da OCAS, agradecemos a sua colaboração e desejamos um ótimo 2009!

Equipe OCAS

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Israel é o terror!


Hoje é o 14º dia dos ataques de Israel à faixa de Gaza e muita coisa vem sendo discutida. Por exemplo, ontem, em reunião do Conselho de Segurança da ONU, 14 países aprovaram o documento que exige o imediato cessar fogo, principalmente por parte de Israel (apenas os Estados Unidos se omitiram), mas segundo os jornais os ataques continuam.
O Hamas, grupo representativo extremista que hoje possui 16% de aprovação entre a sociedade de Gaza, chegou ao poder após enfraquecimento do Fatah, grupo moderado que hoje goza de 40% de aprovação, mas que à época parecia moderado demais aos olhos palestinos. Segundo Israel, os ataques que tiveram início no dia 27 de dezembro visaram impedir que grupos militantes palestinos continuassem a lançar foguetes contra seu território.
No Brasil, gerou-se uma polêmica sobre uma nota publicada pelo PT em seu site que afirma que "a retaliação contra civis é uma prática típica do Exército nazista", recebendo críticas de entidades judáicas brasileiras, latino-americanas e mesmo do ministro de Assuntos Sociais de Israel. A seção latino-americana do Centro Simon Wiesenthal, que luta pela punição a criminosos de guerras nazistas, com sede em Buenos Aire, disse que o comunicado do PT é "escandaloso" e "demonstra solidariedade com o antissemitismo", ao que foi rebatida pelo partido brasileiro com a afirmação de que "escandaloso é um centro de direitos humanos fechar os olhos diante da barbárie praticada contra o povo de Gaza".
A maioria dos judeus espalhados mundo a fora sempre braveja contra qualquer comparação entre o Estado de Israel e o Exército nazista, mas como classificar esse povo que toma um território e, intitulando-se eleitos por Deus, limita a cidadania deste território apenas àqueles que partilham de sua religião exclusivista por natureza? Como aceitar os ataques a civis, escolas, e tantos outros alvos que não se aliam ao Hamas? Se os Estados Unidos invadem e guerreiam vários países em nome da "democracia", Israel seria um bom começo, já que sua pré-condição de existência é completamente anti-democrática.
Em sua última graphic novel, "O complô", Will Eisner - que também era judeu - mostra como seu povo foi vítima de um grande esquema no século XIX, iniciado pela publicação dos "Protocolos dos sábios de Sião", e que acabou desembocando no nazismo do século XX. Parece que a lição foi aprendida, e hoje, assim como o terror dos extremistas muçulmanos (que nem são a maioria desse povo), o terror por parte do Estado de Israel é um dos maiores inimigos da democracia universal.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Entre mortos e feridos, bye-bye 2008



Bom, chegado o fim de ano, é hora de refletir sobre o que aconteceu nestes 365 dias de 2008 – ou, entre mortos e feridos, quem se salvou? – para então estabelecer planos e metas para este próximo que vem chegando.
Há quem não dê muita importância a esse tipo de reflexão, principalmente nesta época do ano. Não é o meu caso.
Acredito que encerrar o ano é encerrar um ciclo. É rever intimamente as posições tomadas até então, o que realmente se tem feito ou não se fez, a concretização ou direcionamento dos planos antigos, as mudanças de planos e seus porquês, com quem se conviveu, se entrosou, se apaixonou, enfim, o que se viveu, e por outro lado, o que aconteceu ao nosso redor, o que aconteceu no país e no mundo, os fatos que marcaram o ano a maneira com que os vivenciamos.
É por isso que sempre gostei de diários, principalmente pelo registro, mas também pela experiência íntima com os fatos que nos propicia. Na falta de um, guardo algumas revistas e jornais que acredito serem expressivos de alguns momentos especiais. O que com certeza não tem muito a ver com um diário no sentido estrito do termo, mas que cumpre certo papel. Coloquei como um item da minha lista de resoluções de ano novo: começar um semanário. Gostaria de ter um diário, mas sei que não teria disciplina suficiente para tanto, então decidi escrever por volta de 5 a 7 tópicos por dia, e no final de semana tento conectá-los em um texto pessoal.
Retomando, toda essa história de reflexão sobre o ano me sobreveio simplesmente porque 2008 foi um ano importante para os tempos que vivemos, o que se faz notar pelo grande número de acontecimentos marcantes ocorridos não só internacionalmente, mas também aqui na terrinha amada. Vou tentar lembrar alguns, de cabeça (portanto me perdoem antecipadamente, pois com certeza vou deixar muita coisa importante de fora):
Pra começar, esse foi um ano de crises: a maior de todas, que foi a financeira, acompanhada pela crise de alimentos do começo do ano, pelas crises políticas na Bolívia, no Congo, e, mais recentemente, na Tailândia e na Grécia.
Também assistimos as olimpíadas na China, e as manifestações pró-Tibet, que mereciam ao menos ter sido mais debatidas pela comunidade internacional. E tivemos ainda um acelerador de partículas que ia revelar os mistérios do universo, mas que deu pau e está sendo consertado; ataques terroristas na Índia, continuações da rodada de Doha e o Brasil presidindo – e muito bem – o G-20.
E por falar em Brasil, por aqui tivemos as eleições municipais, que mostraram certa desorientação do eleitorado com referência ao alinhamento governista/oposicionista. Lula, que a cada pesquisa bateu novos recordes de popularidade, teve seu apoio formal disputado praticamente a tapas pelos candidatos de todos os partidos – aliás, chegou a ser divertido, pra não dizer amedrontador, ver os candidatos do PSDB e PFL bradando a quem quisesse ouvir que estavam com Lula até debaixo d’água – e o erro nojento da campanha de Marta Suplicy querendo angariar votos falando em público que Kassabi era viado, acabou perdendo (playboy!).
Dilma Roussef saiu como o mais provável nome petista na sucessão de Lula, e disse que pré-sal + projetos sociais = erradicação da pobreza no Brasil em até 15 anos! Como a direita nunca surpreende (a não ser com golpes baixos), espera-se um nome como Serra ou Alckmin (que Deus e o povo brasileiro tenham piedade!).
Há que se lembrar que a crise ambiental chega chegando, e como pré-aviso tivemos várias catástrofes naturais ao redor do mundo. Entre terremotos (tremores em São Paulo), incêndios em florestas e muita chuva, sobressaiu a enchente de Santa Catarina, que, sem querer diminuir suas mazelas, mostrou que o país é unido e com disposição a ajudar (e olha que os estados sulinos não têm fama de gostar dessa união brasileira).
No que diz respeito a minha vida pessoal, 2008 também foi um ano decisivo e marcante. Afinal de contas, foi o ano em que me mudei pra São Paulo, e obviamente não se sai ileso de uma experiência destas. Eu costumava achar que, já que já conhecia a cidade, seria razoavelmente simples me adaptar. Engano meu.
Pra começar pela violência, tive meu celular roubado e sofri uma tentativa de furto um tanto bizarra de meu vizinho de corredor, que entrou em meu apartamento e levou meu notebook, o qual apenas consigui reaver levando as fitas de segurança na delegacia, e olha que o cara era advogado e trabalhava (pasmem!) em uma secretaria da OAB.
Bom, de resto sobre São Paulo, o normal. Essa cidade acaba te matando um pouquinho por dentro. Quando você sai na rua e tem que desviar de um monte de gente pra se chegar em qualquer lugar. Os ônibus lotados, os trens atrasados e o trânsito, o trânsito e o trânsito, que a cada dia estava pior. Tudo isso te mata um pouquinho por dentro.
Acontece que só depois dessa pequena morte, que não é senão um batismo, a gente renasce através das pessoas que se conhece, dos lugares que se freqüenta e de toda efervescência cultural que essa cidade coloca a nosso dispor.
Aqui reconquistei velhos amigos e fiz outros novos. Como normalmente acontece na vida de todos, não consegui manter laços com todos que gostaria e nem conheci tanta gente nova e legal como havia planejado. Aos solavancos, também tentei manter contato com os velhos amigos de outros lugares por onde passei, e esse pequeno esforço já valeu a pena.
Tive três empregos diferentes, primeiro como professor de inglês no Ipiranga, depois como assistente de comunicação do mercadolivre.com, em Alphaville (longe pra diabo!), e agora trabalho como assessor de comunicação em um escritório de advogados, o que está longe de ser meu emprego dos sonhos, mas por ser perto de casa a ponto de me possibilitar ir caminhando, já está de bom tamanho.
2008 também foi o ano em que descobri o budismo e a meditação (ótimos remédios contra o caos da metrópole), mas nos quais pretendo me aprofundar em 2009.
E como toda retrospectiva só tem razão de ser graças aos planos que queremos estabelecer ou continuar, segue minha lista de resoluções pro ano que vem:
Como já havia dito, quero dar início a um semanário pessoal, e além disso, juntamente com alguns amigos, vou começar um grupo de estudos sobre o Brasil, quero fazer algumas disciplinas na USP (uma no primeiro e outra no segundo semestre), e pretendo trabalhar como voluntário para alguma ONG.
No plano das criações, inclui-se o desenvolvimento de um curta documentário, três curtas de ficção (os quais já possuo o roteiro), novamente uma revista online, e fora isso, o de sempre: ler mais, escrever mais, fotografar mais, lidar melhor com as pessoas, ser mais claro e objetivo, me exercitar um pouco, e o que mais aparecer em meu caminho.
Acho que já está de bom tamanho. Como diz minha mãe, “não dá pra se chegar longe sem nunca ter partido”. Sábia mamãe!