domingo, 14 de dezembro de 2008

Entre mortos e feridos, bye-bye 2008



Bom, chegado o fim de ano, é hora de refletir sobre o que aconteceu nestes 365 dias de 2008 – ou, entre mortos e feridos, quem se salvou? – para então estabelecer planos e metas para este próximo que vem chegando.
Há quem não dê muita importância a esse tipo de reflexão, principalmente nesta época do ano. Não é o meu caso.
Acredito que encerrar o ano é encerrar um ciclo. É rever intimamente as posições tomadas até então, o que realmente se tem feito ou não se fez, a concretização ou direcionamento dos planos antigos, as mudanças de planos e seus porquês, com quem se conviveu, se entrosou, se apaixonou, enfim, o que se viveu, e por outro lado, o que aconteceu ao nosso redor, o que aconteceu no país e no mundo, os fatos que marcaram o ano a maneira com que os vivenciamos.
É por isso que sempre gostei de diários, principalmente pelo registro, mas também pela experiência íntima com os fatos que nos propicia. Na falta de um, guardo algumas revistas e jornais que acredito serem expressivos de alguns momentos especiais. O que com certeza não tem muito a ver com um diário no sentido estrito do termo, mas que cumpre certo papel. Coloquei como um item da minha lista de resoluções de ano novo: começar um semanário. Gostaria de ter um diário, mas sei que não teria disciplina suficiente para tanto, então decidi escrever por volta de 5 a 7 tópicos por dia, e no final de semana tento conectá-los em um texto pessoal.
Retomando, toda essa história de reflexão sobre o ano me sobreveio simplesmente porque 2008 foi um ano importante para os tempos que vivemos, o que se faz notar pelo grande número de acontecimentos marcantes ocorridos não só internacionalmente, mas também aqui na terrinha amada. Vou tentar lembrar alguns, de cabeça (portanto me perdoem antecipadamente, pois com certeza vou deixar muita coisa importante de fora):
Pra começar, esse foi um ano de crises: a maior de todas, que foi a financeira, acompanhada pela crise de alimentos do começo do ano, pelas crises políticas na Bolívia, no Congo, e, mais recentemente, na Tailândia e na Grécia.
Também assistimos as olimpíadas na China, e as manifestações pró-Tibet, que mereciam ao menos ter sido mais debatidas pela comunidade internacional. E tivemos ainda um acelerador de partículas que ia revelar os mistérios do universo, mas que deu pau e está sendo consertado; ataques terroristas na Índia, continuações da rodada de Doha e o Brasil presidindo – e muito bem – o G-20.
E por falar em Brasil, por aqui tivemos as eleições municipais, que mostraram certa desorientação do eleitorado com referência ao alinhamento governista/oposicionista. Lula, que a cada pesquisa bateu novos recordes de popularidade, teve seu apoio formal disputado praticamente a tapas pelos candidatos de todos os partidos – aliás, chegou a ser divertido, pra não dizer amedrontador, ver os candidatos do PSDB e PFL bradando a quem quisesse ouvir que estavam com Lula até debaixo d’água – e o erro nojento da campanha de Marta Suplicy querendo angariar votos falando em público que Kassabi era viado, acabou perdendo (playboy!).
Dilma Roussef saiu como o mais provável nome petista na sucessão de Lula, e disse que pré-sal + projetos sociais = erradicação da pobreza no Brasil em até 15 anos! Como a direita nunca surpreende (a não ser com golpes baixos), espera-se um nome como Serra ou Alckmin (que Deus e o povo brasileiro tenham piedade!).
Há que se lembrar que a crise ambiental chega chegando, e como pré-aviso tivemos várias catástrofes naturais ao redor do mundo. Entre terremotos (tremores em São Paulo), incêndios em florestas e muita chuva, sobressaiu a enchente de Santa Catarina, que, sem querer diminuir suas mazelas, mostrou que o país é unido e com disposição a ajudar (e olha que os estados sulinos não têm fama de gostar dessa união brasileira).
No que diz respeito a minha vida pessoal, 2008 também foi um ano decisivo e marcante. Afinal de contas, foi o ano em que me mudei pra São Paulo, e obviamente não se sai ileso de uma experiência destas. Eu costumava achar que, já que já conhecia a cidade, seria razoavelmente simples me adaptar. Engano meu.
Pra começar pela violência, tive meu celular roubado e sofri uma tentativa de furto um tanto bizarra de meu vizinho de corredor, que entrou em meu apartamento e levou meu notebook, o qual apenas consigui reaver levando as fitas de segurança na delegacia, e olha que o cara era advogado e trabalhava (pasmem!) em uma secretaria da OAB.
Bom, de resto sobre São Paulo, o normal. Essa cidade acaba te matando um pouquinho por dentro. Quando você sai na rua e tem que desviar de um monte de gente pra se chegar em qualquer lugar. Os ônibus lotados, os trens atrasados e o trânsito, o trânsito e o trânsito, que a cada dia estava pior. Tudo isso te mata um pouquinho por dentro.
Acontece que só depois dessa pequena morte, que não é senão um batismo, a gente renasce através das pessoas que se conhece, dos lugares que se freqüenta e de toda efervescência cultural que essa cidade coloca a nosso dispor.
Aqui reconquistei velhos amigos e fiz outros novos. Como normalmente acontece na vida de todos, não consegui manter laços com todos que gostaria e nem conheci tanta gente nova e legal como havia planejado. Aos solavancos, também tentei manter contato com os velhos amigos de outros lugares por onde passei, e esse pequeno esforço já valeu a pena.
Tive três empregos diferentes, primeiro como professor de inglês no Ipiranga, depois como assistente de comunicação do mercadolivre.com, em Alphaville (longe pra diabo!), e agora trabalho como assessor de comunicação em um escritório de advogados, o que está longe de ser meu emprego dos sonhos, mas por ser perto de casa a ponto de me possibilitar ir caminhando, já está de bom tamanho.
2008 também foi o ano em que descobri o budismo e a meditação (ótimos remédios contra o caos da metrópole), mas nos quais pretendo me aprofundar em 2009.
E como toda retrospectiva só tem razão de ser graças aos planos que queremos estabelecer ou continuar, segue minha lista de resoluções pro ano que vem:
Como já havia dito, quero dar início a um semanário pessoal, e além disso, juntamente com alguns amigos, vou começar um grupo de estudos sobre o Brasil, quero fazer algumas disciplinas na USP (uma no primeiro e outra no segundo semestre), e pretendo trabalhar como voluntário para alguma ONG.
No plano das criações, inclui-se o desenvolvimento de um curta documentário, três curtas de ficção (os quais já possuo o roteiro), novamente uma revista online, e fora isso, o de sempre: ler mais, escrever mais, fotografar mais, lidar melhor com as pessoas, ser mais claro e objetivo, me exercitar um pouco, e o que mais aparecer em meu caminho.
Acho que já está de bom tamanho. Como diz minha mãe, “não dá pra se chegar longe sem nunca ter partido”. Sábia mamãe!

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Até a revolução foi “brasileira”

Escrevi esse texto pra uma oficina de redação que estou cursando no Centro Cultural São Paulo. Achei comédia então resolvi postar. O tema era "uma notícia absurda":

Muita gente achou estranho quando uma carreata de ônibus, que tinham como origem as mais variadas cidades do interior do Brasil, chegou a capital federal na manhã desta quinta-feira.

Havia quem pensasse que se tratava de mais uma destas típicas manifestações contra ou a favor do governo, as quais os cidadãos brasilianos estão cansados de assistir; enquanto outros acreditavam ser uma comitiva de paraguaios manifestando sua vontade de que o Estado brasileiro pagasse pela energia elétrica de Itaipu, e outros ainda que diziam que o comboio vinha de cidades da região para assistir ao show da banda Calypso, programado para naquela noite.

Porém, ninguém esperava que esses 432 indivíduos que, saindo dos automóveis começavam a marchar rumo ao Palácio do Planalto, muito espaçados entre si – dando a impressão de abrigarem um numero muito maior de manifestantes; que gritavam palavras de ordem como “chega da síndrome do 3º mundo”, ou “que pense pequeno quem é pequeno, pensar grande é pra gigante”, portando fuzis, pistolas e garruchas, atravessassem a Praça dos Três Poderes, disparando em qualquer coisa, animal ou individuo que se movesse em sua direção, de fato ocupasse a sede do governo federal e proclamasse sua revolução.

Diferentemente do que se esperaria de qualquer outra nação latino-americana, a Revolução brasileira não teve um grande numero de mortes, nem de combates, e nem proclamou a estatização dos meios de produção pelos proletários. O que se viu, ao contrário, foi um de seus líderes, Diego Cabral da Fonseca, de Vassouras, RJ, empunhar um I-Pod que tocava “aquarela do Brasil” e um megafone, fazendo um discurso que durou aproximadamente 5 minutos, que apenas conclamava o povo a prestar mais atenção em seu país, que agora impunha respeito nas rodadas de Doha, organizava os emergentes, incluía socialmente os mais miseráveis e mostrava ao mundo como era possível se desenvolver sem se submeter à especulação financeira e sem ficar suscetível às crises provenientes deste regime, enquanto a multidão simplesmente aplaudia, sem compreender muito bem o que acontecia.

O grupo então anunciou suas mudanças estruturais que comportavam aulas de samba obrigatórias nas escolas públicas e particulares, feijoada como prato oficial de todas residências e restaurantes brasileiros às quartas-feiras e aos sábados, o acertamento do candomblé como religião oficial do país e a canonização extra-oficial de Tom Jobim, Mario de Andrade e Caetano Veloso (o que para muitos soou como incongruência).

Quando questionado sobre a possibilidade de tomar o poder e se tornar o chefe do novo Estado brasileiro, Diego disse que se sentia seguro com Lula no comando e que este não perderia seu cargo, desde que acatasse a todas as medidas.

Lula disse amém, e a façanha foi concluída com um show de samba regado a muita cerveja e caipirinha e algumas dores de cabeça no dia seguinte.

Aguarda-se novas resoluções.


E por falar em notícias fictícias:
http://www.abril.com.br/noticias/diversao/grupo-falsifica-new-york-times-anuncia-fim-guerra-iraque-178653.shtml

sábado, 8 de novembro de 2008

Uma ética da ação na periferia

Não sou um grande estudioso de filosofia, mas acredito que um grande número de pensadores já se debruçou sobre a questão do tempo. Esse tempo racional, que existe em nossas mentes e que conta os minutos, as horas, os dias, os meses e os anos, resultado dos movimentos da terra no sistema solar e que impõe uma durabilidade material às coisas e aos seres.
Se refletirmos brevemente sobre as três maiores abstrações de que fazemos uso para administrar o tempo – o passado, o presente e o futuro –, concluiremos, grosso modo, que o passado é um tempo que não mais existe, e o futuro, um tempo que possivelmente ainda vai existir, nenhum dos dois é concreto.
Assim, o futuro sendo o lugar dos projetos e dos planos, e o passado apenas uma referência parcial sobre o que somos e de onde viemos, o único tempo palpável e total que sempre existiu e sempre existirá é justamente o presente.
Além de ser no presente que nos recordamos sobre o passado, valorizamos ou não a tradição e decidimos se damos continuidade ou não ao que já passou, também é no presente que criamos expectativas sobre o porvir, estabelecemos planos e metas que amanhã – quando amanhã se tornar hoje – decidiremos se os levaremos adiante ou estabeleceremos outros.
Desta maneira o presente se transforma em morada natural da ação, pois é apenas agindo que faremos nosso presente pleno, fortalecendo-o ao articular as referências mais propícias do passado, para que possa dar vida a um futuro consistente. Agir é o mais importante. Agir é construir, e sem construção o presente é sempre o mesmo, ou no máximo uma versão degradada do passado.
A religião católica tem reconhecidamente seu nome sujo no cartório quando se trata do tema de transformar o presente em mesmice, oferecendo à sociedade a possibilidade de uma vida plena de paz e alegrias no futuro (leia-se “no além”) praticamente independente das ações no presente, bastando para isso que o indivíduo se arrependesse de seus pecados em seu leito de morte. É conhecido o argumento de Weber de que a ética protestante é mais afeita à ação, mais preocupada com o presente do que a religião que dominou o ocidente por mais de um milênio.
Nos dias de hoje ainda se nota esse marasmo social principalmente na classe média, que historicamente conseguiu se acomodar com grande facilidade, e assim, sem refletir profundamente sobre o passado, vive o presente sem grandes aspirações para o futuro.
Mas diferentemente do que ocorre na classe média, nas classes mais baixas, nas periferias, onde os infortúnios são tantos que, quando se tornam passado, é muito difícil de esquecê-los, e entre aqueles que ainda assim depositam suas esperanças no futuro, percebe-se mais facilmente que o presente é lugar de luta e ação, geralmente com o intuito de se conseguir condições melhores de vida, um projeto nem sempre atingível.
Ainda assim, traz muita satisfação saber que na periferia existe gente tentando articular de maneira sábia tradição e cultura para enxergar no presente sua possibilidade de ação e, desta maneira, construir o futuro.
Recentemente me foi apresentado um grupo de rap da década de 90 chamado MRN (sigla para Movimento e Ritmo Negro), e foi justamente a música “Noite de insônia” do álbum “Só se não quiser” (de 1994) que me chamou a atenção para esta questão. Eis a letra:

São três da madrugada
Sinto que minha mente está totalmente atravessada,
Merda da balada, constantemente me acaba e não consigo dormir,
Uma insônia danada, ansiedade que me abala
Conto os minutos no relógio, o tempo não passa
Reflito e acho que vou explodir,
Para onde ir? O que fazer? Não sei.
Me acalmo e deixo o pensamento correr,
Vou pensar nesta vida que está foda de se viver.
Estou vivendo livremente aos 23.
Sempre sonhando com tudo, lidando com a vida,
Que promete muitas coisas que estou sempre querendo abraçar,
Daqui ou de lá, do jeito que dá,
Usando sempre uma arma,
A força de vontade para caminhar em busca dos objetivos
Que preciso alcançar, sem os quais eu sinto que realmente não dá.

Ou seja, em um momento de crise de sono, o narrador começa a refletir sobre sua vida, “que está foda de se viver”, mas que mesmo assim ele mantém a força de vontade para seguir em frente. Porém, como escreveu Ortega y Gasset :“a divisão mais radical que deve ser feita na humanidade é dividi-la em duas classes de criaturas: as que exigem muito de si mesmas e se acumulam de dificuldades e deveres, e as que não exigem de si nada de especial, para as quais viver é ser a cada instante o que já são, sem esforço para o aperfeiçoamento de si próprias, bóias que vão à deriva ”*:

Ando indignado com os manos que cresceram ao meu lado,
Vejo que estão vivendo a vida somente de brisa, é foda,
Esse fato muito me irrita,
Não constroem nada, não correm atrás de nada,
Preferem aglomerar os sonhos, viver na mesma
Ao invés de terem que enfrentar barreiras,
Não entendo como vivem assim, pararam no tempo, eu lamento.
Oh, Senhor! Eu preciso dar continuidade ao meu nascimento
Todos os dias, a todo momento, a todo momento.

E o passado se mostra importante não apenas como referência histórica geral, mas principalmente através da memória de si mesmo, que obviamente se torna mais complexa de acordo com a complexidade de nosso presente, como enfrentamos os problemas e decepções e mesmo assim seguimos em frente (lutando, e não empurrando com a barriga). Esse tipo de memória seria responsável pelo nosso amadurecimento:

Relembro do passado, dos dias de 89
Eu com 19 e já sinto uma certa saudade,
A vontade de voltar atrás, mas não dá,
Foi um tempo que vivi com muita intensidade,
E que hoje me traz muitas saudades,
Dos amigos que marcaram época.
De alguém que me marcou com palavras, gestos e atitudes sinceras,
Aquela puta se foi e nem um tchau me deu,
Me deixou no tempo, foi, desapareceu,
E ela nunca mais voltou,
Pode crer, ela nunca mais voltou.
É difícil entender como tudo se deu, valeu,
Foi parte da minha vida que hoje em dia me faz falta,
Muita falta,
Um ótimo episódio que infelizmente não tem volta
Considero esse tempo uma parte valiosa da minha história,
E que está levando uma boa vantagem na disputa com o presente
Que está foda de se viver,
Ultimamente tenho percebido vários manos, fulanos, otários,
Querendo atrasar meu lado,
Tentando apagar o meu valor
Vagabundos me olhando com raiva,
Afim de me armar uma grande cilada,
Mas mesmo assim eu Nil, vou que vou,
Não, não, comigo não,
Fodo quem tenta me foder,
Isso tem sido necessário pra se sobreviver.

Walter Benjamin notou uma característica na experiência humana que é melhor expressa na língua alemã, para a qual esse conceito está associado a duas palavras: Erlebnis e Erfahrung. Enquanto o primeiro exprime uma experiência que se vive como algo indiferente e sem grande impacto sobre nossa pessoa – o tipo de experiência que se tem a todo o momento quando se vive apenas por viver –; Erfahrung expressa a experiência que nos envolve de maneira tal que, segundo Benjamin, conecta certos aspectos de nosso passado individual com “material do passado coletivo”**. É esse tipo de experiência que nos amadurece e emancipa enquanto indivíduos que estão conectados pela possibilidade da experiência humana realizada. Neste trecho citado da música temos um exemplo bem conhecido de experiências que marcam e que são universais, que são as experiências amorosas; e mais uma vez o narrador demonstra que o presente está difícil de ser vivido, com inimigos e percalços no caminho, mas que mesmo assim é necessário seguir em frente (mesmo que isso implique uma total falta de altruísmo).
Vou deixar aqui o resto da letra (ainda que meu foco fosse as passagens anteriores):

Paro pra pensar nestas pessoas em busca de uma explicação,
E começo a perceber que todas elas revelam uma pobreza de espírito que não acredito
Oh meu Deus eu dou risada de tudo isso
Esse mundo realmente é esquisito

Confesso que tenho andado meio confuso
Em ter que conhecer o outro lado do mundo
Figuras formam no subconsciente
E as noites se transformam em pensamentos deprimentes
Eu penso que tudo um dia irá se acabar,
E como será o meu estágio em outro lugar?
Marvin, Marley, Hendrix,Tosh e meu velho mano DG,
Meu velho mano DG, se foram
E não mandaram notícias de lá.
Esse caminho doloroso é foda, não consigo me encaixar,
Teorias, milhares conheço,
Se o outro lado é mais belo, isso já não sei,
Mas um dia infelizmente terei que ir pra lá, pra depois voltar,
Esse ciclo é verdadeiro, eu to ligado que não vou escapar.
Quando eu penso que da vida a gente leva
Somente a vida que a gente leva,
Fico zoado, é tudo muito complicado,
Mas uma coisa é certa,
MRN, uma sigla, meu passado, meu presente, meu futuro,
Que carregarei comigo por toda minha vida
Como diz Jobim, “até na despedida”.
Acho que a porra dessa insônia tá ficando foda,
Boa noite São Paulo, ainda estou acordado, ainda estou acordado.

Bem, sei que já me delonguei por demais, porém, considerando o que já foi dito, que o presente é o tempo que mais importa, que intercala duas abstrações (passado e futuro), e que muitas vezes as pessoas não têm consciência disso, vou concluir esse longo pensamento com uma citação de um filósofo do século VII d.c., chamado Sêneca, e que escreveu esse belo libreto sobre como se viver a boa vida (e que implica valorizar seu presente):

Comporta-te assim, meu Lucílio, reivindica o teu direito sobre ti mesmo e o tempo que até hoje foi levado embora, foi roubado ou fugiu, recolhe e aproveita esse tempo. Convence-te de que é assim como te escrevo: certos momentos nos são tomados, outros nos são furtados e outros ainda se perdem no vento. Mas a coisa mais lamentável é perder tempo por negligência. Se pensares bem, passamos grande parte da vida agindo mal, a maior parte sem fazer nada, ou fazendo algo diferente do que se deveria fazer.
Podes me indicar alguém que dê valor ao seu tempo, valorize seu dia, entenda que se morre diariamente? Nisso, pois, falhamos: pensamos que a morte é coisa do futuro, mas parte dela é coisa do passado. Qualquer tempo que já passou pertence à morte.
Então, caro Lucílio, procura fazer aquilo que me escreves: aproveita todas as horas; serás menos dependente do amanha se te lançares ao presente. Enquanto adiamos, a vida se vai. Todas as coisas, Lucílio, nos são alheias; só o tempo é nosso. A natureza deu-nos posse de uma única coisa, fugaz e escorregadia, da qual qualquer um que queira pode nos privar. E é tanta a estupidez dos mortais que, por coisas insignificantes e desprezíveis, as quais certamente se podem recuperar, concordam em contrair dívidas de bom grado, mas ninguém pensa que alguém lhe deva algo ao tomar o seu tempo, quando, na verdade, ele é único, e mesmo aquele que reconhece que o recebeu não pode devolver esse tempo de quem tirou.
Talvez me perguntes o que faço para te dar esses conselhos. Eu te direi francamente: tenho consciência de que vivo de modo requintado, porém cuidadoso. Não posso dizer que não perco nada, mas posso dizer o que perco, o porquê e como; e te darei as razões pelas quais me considero miserável. No entanto, a mim acontece o que ocorre com a maioria que está na miséria não por culpa própria: todos estão prontos a desculpar, ninguém a dar a mão.
E agora? A uma pessoa para a qual basta o pouco que lhe resta, não considero pobre. Mas é melhor que tu conserves todos os teus pertences, e começarás em tempo hábil. Porque, como diz um sábio ditado, é tarde para poupar quando só resta o fundo da garrafa. E o que sobra é muito pouco, é o pior. Passa bem!***

Faço dele minhas palavras. Aja no presente e terá um passado com conteúdo e a única possibilidade de um futuro melhor.

*Ortega y Gasset, José. “A rebeliao das massas”. Editora Martins Fontes, São Paulo, 2007.
**Benjamin, Walter. “Obras escolhidas III – Charles Baudelaire”. Editora Brasiliense. 2004.
***Sêneca, Lúcio Anneo. "Aprendendo a viver". Editora LP&M. São Paulo, 2008.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Entrevista com AfroBreak

Sei que estou um pouco relapso com as postagens, mas tenho me dedicado a outros projetos recentemente. Um deles é a edição de um vídeo sobre um evento de break que ocorreu em Americana, interior de São Paulo, no ano passado. Neste evento de dois dias, que contou com a presença de crews de várias partes do Brasil disputando um prêmio de R$ 1.000,00, conheci e entrevistei o grupo Afrobreak, de Diadema, que apresentou uma coreografia muito interessante, misturando elementos brasileiros ao break. No segundo dia de evento, parte deste grupo venceu a batalha de crews. Segue a entrevista, primeira parte concluída do DVD.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Contribuições brasileiras para uma época sem fronteiras

Por três curtos dias recebi em meu apartamento aqui em São Paulo a visita de um francês, Gilles, o qual conheci através do site couch surfing, que se baseia, grosso modo, no oferecimento e procura de locais para hospedagem, sem que se pague por isso, ou seja, você cede o seu sofá para que algum viajante intrépido tenha onde dormir e um dia, quando você se encontrar na mesma situação, uma boa alma poderá fazer o mesmo por você .
Nosso choque foi enorme quando, com o decorrer do tempo percebemos que tínhamos tantas características e interesses em comum, que iam desde bandas favoritas de hip hop ao cinema independente contemporâneo, passando pelo gosto em se discutir as novas esquerdas latino-americanas e criticar os novos (não tão novos) governos de direita da Europa, ao fato de termos a mesma idade, e, só para encurtar, estarmos vivendo momentos muito parecidos de nossa vida.
Gilles não conhecia muito do Brasil além do que dita o senso comum na Europa, ou seja, o tal do “melting pot” que gerou nossa “democracia racial”, a desorganização do espaço público, a efervescência cultural e, obviamente a personalidade afetiva do brasileiro. Mas dentre as coisas que mais pareciam surpreendê-lo, afora o desenvolvimento e o tamanho da cidade de São Paulo, foi que nossa assim chamada “democracia racial” não expressava pura e simplesmente o convívio pacífico de pessoas das mais diversas culturas e etnias que, vivendo sob a mesma legislação, acabassem sendo obrigadas a se relacionar. O que ele viu, segundo o próprio, é que as pessoas aqui estão mais dispostas a viverem bem umas com as outras. É claro que é arriscado fazer uma afirmação destas sem cair naquela tradicional questão de que somos um povo caloroso e feliz e que nunca passamos por momentos de discórdia ou de raiva profunda, seja no trânsito, no trabalho ou mesmo dentro de casa; por isso, perceba bem, eu escrevi “mais dispostos”. Mas isso nos levava freqüentemente a questão de como o Brasil poderia contribuir para a época global na qual vivemos através desta disposição.
A participação brasileira nas tomadas de decisões do mundo contemporâneo tem aumentado intensamente e, ao que tudo indica, essa participação tende a aumentar cada vez mais. Fato mais recente que demonstra essa tese é o tamanho do poder de barganha que nosso país conseguiu na rodada de Doha, evento responsável por definir novos parâmetros para a economia mundial.
O mais estranho é saber que, não fosse por nós brasileiros termos a oportunidade de acompanhar de perto as transformações que o mundo, e provavelmente mais intensamente o próprio Brasil, vem sofrendo, poucos arriscariam dizer que um país onde a maioria da população sempre foi miserável, com estruturas de poder historicamente corrompidas, organizações sociais praticamente inexistentes ou rarefeitas diante da imensidão do território e da população a serem administrados, pudesse de fato participar diretamente da civilização global. E, não obstante, o mais interessante é saber que o produto dessa história moderna “às avessas” é que seria responsável pela originalidade da posição que assumimos diante da comunidade internacional.
É fato mais do que debatido e demonstrado por historiadores, sociólogos e economistas, que o Brasil sempre esteve na contramão da história, desde seu descobrimento. Com isso não digo que há um trajeto histórico a ser percorrido, implicando, senão num evolucionismo eurocentrista, ao menos num ocidentalismo ingênuo, e é justamente o contrário que tento expor.
Sabemos que enquanto as colônias do Norte foram formadas por indivíduos expulsos principalmente da França e da Inglaterra, em regra geral, presos políticos ou religiosos, e até mesmo miseráveis que recebiam incentivos de suas coroas para povoar o novo mundo, gerando desde o embrião uma sociedade organizada em torno de valores claramente definidos como o trabalho livre, a poupança e o empreendedorismo, a América Ibérica recebeu em sua maioria gananciosos espoliadores interessados em retirar daqui o máximo de riquezas possíveis, através de grandes empreendimentos sustentados pela mão-de-obra escrava, fosse ela indígena, como na maior da parte da América Espanhola, ou africana, como tivemos nesta América Portuguesa, afim de fazer uso de seus ganhos na Europa.
E, num segundo momento, mesmo entre nossos hermanos, enquanto estes iam se tornando repúblicas independentes, nós recebíamos aqui a família real metropolitana e nos tornávamos a sede do império colonialista português. E mesmo com nossa independência, a América Portuguesa, que tinha tudo para ser um continente, se tornou um bloco unificado sob a regência de um imperador proveniente da linhagem real portuguesa. A única monarquia das Américas.
Obviamente os exemplos não param por aí, vide o fato de nossa república ser finalmente proclamada na virada do século XIX para o XX e... por militares positivistas (!?), tendo como primeiro presidente Marechal Deodoro da Fonseca. Segundo Sérgio Buarque de Holanda, o fato de nossas estruturas de poder político não terem emergido da organização popular, como na maior parte das Américas (não só na do Norte), ou não ter criado um espaço amplo que requeresse maior ação da iniciativa privada organizada, como na Europa, é um traço marcante da sociabilidade brasileira. Posto diretamente em suas palavras: “nossa tradicional indistinção entre as esferas do publico e do privado”, que possibilitaram a nós sermos todos “homens cordiais” .
Há quem pense a cordialidade do brasileiro descrita por Sergio Buarque como se fosse algo como uma cortesia, uma bondade natural, confusão que o próprio autor resolve: cordial, neste sentido, representa a ligação mais direta com a raiz etimológica da palavra, que significa “coração”. E isso não quer dizer “ternura”, mas antes ter a sociabilidade pautada por critérios mais ligados ao coração do que a razão. O brasileiro estaria igualmente apto tanto para a amizade quanto para a inimizade, a diferença estaria no fato de que ele solucionaria ambos através de critérios subjetivos – pelo coração. Enquanto sociedades objetivamente organizadas têm uma maneira mais polida de tratar ambas, respeitando os limites das relações públicas e privadas.
Ainda segundo este autor, que foi um dos fundadores do pensamento social brasileiro moderno, responsável pela mais completa e aceita interpretação do Brasil e do brasileiro, esta forma de sociabilidade teria começado a ruir com o desmantelamento da sociedade escravista, que levou consigo a maior parte do espírito dos laços do mundo rural, mais propensos a suportar e desenvolver o “homem cordial”. Este processo seria intensificado com as transformações que sofremos no século XX, como o aumento da industrialização, o alargamento das instituições de ensino, e todos estes fatores que propiciam o desenvolvimento da vida urbana e mais objetiva dos grandes centros.
Com certeza vemos que esse processo se torna cada vez maior. No Brasil de hoje, contamos cada vez mais com menos miseráveis, mais pessoas têm acesso a educação e a informação e esboça-se uma participação política cada vez maior – hoje em dia consigo ver muitas pessoas conversando sobre política e debatendo assuntos da ordem do dia, seja no ônibus, na padaria ou no trabalho. É claro que ainda não é o suficiente e que ainda há muito o que se melhorar, porém é inegável que as coisas estão mudando. E, ao invés de sumir, o homem cordial está se transformando, e, acredito eu, para melhor.
E então, quando Gilles perguntou a mim e a meus roommates o que esperávamos que fosse a contribuição do Brasil para a sociedade global, tentei explicar que gostaria que nossa cordialidade fosse nossa herança, não aquela cordialidade boba, que é uma ternura cega e indistinta, e nem a cordialidade de Sérgio Buarque, que é essa subjetivação de todo o mundo social, mas sim essa cordialidade que começamos a desenvolver agora, que penso que seja algo como um respeito afetuoso pelo ser humano, mas que não despreze certa objetividade nos laços sociais, coisa que estamos ainda aprendendo. E foi então que uma amiga minha disse: “Acho que o desenho do Capitão Planeta já respondeu a sua questão, Gilles.” Pra quem não se lembra, neste desenho animado, cada personagem representava seu país ou continente e tinha um “poder” que simbolizava sua origem através de um elemento, como o africano tinha o poder da terra, a asiática, que acho que era japonesa, tinha o poder da “água”, a russa tinha o poder do ar, o norte-americano, creia, tinha o poder do “fogo” e o indiozinho brasileiro tinha o poder do “coração”. Gilles não conhecia o desenho, mas aprovou o conceito.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Abertura

Acredito que esperei pelo momento certo para dar início a este blog. É engraçado que eu tenha esperado tanto para fazer isso. Sempre via um número tão grande destes sites que eu sempre me perguntava se valeria a pena eu começar o meu próprio. A questão era que com uma quantidade tão absurda de diários online espalhados pelas planícies virtuais da web, teria eu algo de interessante e de novo para acrescentar? Ou seria meu blog apenas mais uma dessas páginas na qual se registra um número sem fim de informações desconexas e de cunho ultra pessoal? Mas foi só então, enquanto discutia esse tema com um amigo, que chegamos à conclusão de que essa reorganização da informação na qual a internet nos implicou disponibiliza espaço a todos e que, por mais difícil que seja encontrar algo que realmente se goste, mais do que um desafio, é a nova fundação de um velho paradigma democrático, e sua reorganização e melhora só depende de nós.Com isso não quero dizer que aqui todos irão encontrar algo que buscam, ou que meu blog se diferenciaria dos outros em termos de qualidade. Muito pelo contrário. Sou um marinheiro de primeira viagem e escrever sempre me foi um desafio (na verdade, a prática da escrita é o que mais motivou a iniciá-lo) e meus textos, embora não tratem exatamente de acontecimentos de minha vida privada, com certeza são temas que a circundam e que fazem mais sentido pra mim do que a qualquer outro mortal. De qualquer forma, é melhor já deixar claro de antemão que eles tendem a ser longos e que em geral eu perco o fio da meada com grande facilidade. Então, caso se proponha a lê-lo, esteja à vontade para pular trechos e mesmo me criticar. Assim como estou disposto a falar, também estou a ouvir.

Um grande abraço e obrigado pela atenção!