Por três curtos dias recebi em meu apartamento aqui em São Paulo a visita de um francês, Gilles, o qual conheci através do site couch surfing, que se baseia, grosso modo, no oferecimento e procura de locais para hospedagem, sem que se pague por isso, ou seja, você cede o seu sofá para que algum viajante intrépido tenha onde dormir e um dia, quando você se encontrar na mesma situação, uma boa alma poderá fazer o mesmo por você .
Nosso choque foi enorme quando, com o decorrer do tempo percebemos que tínhamos tantas características e interesses em comum, que iam desde bandas favoritas de hip hop ao cinema independente contemporâneo, passando pelo gosto em se discutir as novas esquerdas latino-americanas e criticar os novos (não tão novos) governos de direita da Europa, ao fato de termos a mesma idade, e, só para encurtar, estarmos vivendo momentos muito parecidos de nossa vida.
Gilles não conhecia muito do Brasil além do que dita o senso comum na Europa, ou seja, o tal do “melting pot” que gerou nossa “democracia racial”, a desorganização do espaço público, a efervescência cultural e, obviamente a personalidade afetiva do brasileiro. Mas dentre as coisas que mais pareciam surpreendê-lo, afora o desenvolvimento e o tamanho da cidade de São Paulo, foi que nossa assim chamada “democracia racial” não expressava pura e simplesmente o convívio pacífico de pessoas das mais diversas culturas e etnias que, vivendo sob a mesma legislação, acabassem sendo obrigadas a se relacionar. O que ele viu, segundo o próprio, é que as pessoas aqui estão mais dispostas a viverem bem umas com as outras. É claro que é arriscado fazer uma afirmação destas sem cair naquela tradicional questão de que somos um povo caloroso e feliz e que nunca passamos por momentos de discórdia ou de raiva profunda, seja no trânsito, no trabalho ou mesmo dentro de casa; por isso, perceba bem, eu escrevi “mais dispostos”. Mas isso nos levava freqüentemente a questão de como o Brasil poderia contribuir para a época global na qual vivemos através desta disposição.
A participação brasileira nas tomadas de decisões do mundo contemporâneo tem aumentado intensamente e, ao que tudo indica, essa participação tende a aumentar cada vez mais. Fato mais recente que demonstra essa tese é o tamanho do poder de barganha que nosso país conseguiu na rodada de Doha, evento responsável por definir novos parâmetros para a economia mundial.
O mais estranho é saber que, não fosse por nós brasileiros termos a oportunidade de acompanhar de perto as transformações que o mundo, e provavelmente mais intensamente o próprio Brasil, vem sofrendo, poucos arriscariam dizer que um país onde a maioria da população sempre foi miserável, com estruturas de poder historicamente corrompidas, organizações sociais praticamente inexistentes ou rarefeitas diante da imensidão do território e da população a serem administrados, pudesse de fato participar diretamente da civilização global. E, não obstante, o mais interessante é saber que o produto dessa história moderna “às avessas” é que seria responsável pela originalidade da posição que assumimos diante da comunidade internacional.
É fato mais do que debatido e demonstrado por historiadores, sociólogos e economistas, que o Brasil sempre esteve na contramão da história, desde seu descobrimento. Com isso não digo que há um trajeto histórico a ser percorrido, implicando, senão num evolucionismo eurocentrista, ao menos num ocidentalismo ingênuo, e é justamente o contrário que tento expor.
Sabemos que enquanto as colônias do Norte foram formadas por indivíduos expulsos principalmente da França e da Inglaterra, em regra geral, presos políticos ou religiosos, e até mesmo miseráveis que recebiam incentivos de suas coroas para povoar o novo mundo, gerando desde o embrião uma sociedade organizada em torno de valores claramente definidos como o trabalho livre, a poupança e o empreendedorismo, a América Ibérica recebeu em sua maioria gananciosos espoliadores interessados em retirar daqui o máximo de riquezas possíveis, através de grandes empreendimentos sustentados pela mão-de-obra escrava, fosse ela indígena, como na maior da parte da América Espanhola, ou africana, como tivemos nesta América Portuguesa, afim de fazer uso de seus ganhos na Europa.
E, num segundo momento, mesmo entre nossos hermanos, enquanto estes iam se tornando repúblicas independentes, nós recebíamos aqui a família real metropolitana e nos tornávamos a sede do império colonialista português. E mesmo com nossa independência, a América Portuguesa, que tinha tudo para ser um continente, se tornou um bloco unificado sob a regência de um imperador proveniente da linhagem real portuguesa. A única monarquia das Américas.
Obviamente os exemplos não param por aí, vide o fato de nossa república ser finalmente proclamada na virada do século XIX para o XX e... por militares positivistas (!?), tendo como primeiro presidente Marechal Deodoro da Fonseca. Segundo Sérgio Buarque de Holanda, o fato de nossas estruturas de poder político não terem emergido da organização popular, como na maior parte das Américas (não só na do Norte), ou não ter criado um espaço amplo que requeresse maior ação da iniciativa privada organizada, como na Europa, é um traço marcante da sociabilidade brasileira. Posto diretamente em suas palavras: “nossa tradicional indistinção entre as esferas do publico e do privado”, que possibilitaram a nós sermos todos “homens cordiais” .
Há quem pense a cordialidade do brasileiro descrita por Sergio Buarque como se fosse algo como uma cortesia, uma bondade natural, confusão que o próprio autor resolve: cordial, neste sentido, representa a ligação mais direta com a raiz etimológica da palavra, que significa “coração”. E isso não quer dizer “ternura”, mas antes ter a sociabilidade pautada por critérios mais ligados ao coração do que a razão. O brasileiro estaria igualmente apto tanto para a amizade quanto para a inimizade, a diferença estaria no fato de que ele solucionaria ambos através de critérios subjetivos – pelo coração. Enquanto sociedades objetivamente organizadas têm uma maneira mais polida de tratar ambas, respeitando os limites das relações públicas e privadas.
Ainda segundo este autor, que foi um dos fundadores do pensamento social brasileiro moderno, responsável pela mais completa e aceita interpretação do Brasil e do brasileiro, esta forma de sociabilidade teria começado a ruir com o desmantelamento da sociedade escravista, que levou consigo a maior parte do espírito dos laços do mundo rural, mais propensos a suportar e desenvolver o “homem cordial”. Este processo seria intensificado com as transformações que sofremos no século XX, como o aumento da industrialização, o alargamento das instituições de ensino, e todos estes fatores que propiciam o desenvolvimento da vida urbana e mais objetiva dos grandes centros.
Com certeza vemos que esse processo se torna cada vez maior. No Brasil de hoje, contamos cada vez mais com menos miseráveis, mais pessoas têm acesso a educação e a informação e esboça-se uma participação política cada vez maior – hoje em dia consigo ver muitas pessoas conversando sobre política e debatendo assuntos da ordem do dia, seja no ônibus, na padaria ou no trabalho. É claro que ainda não é o suficiente e que ainda há muito o que se melhorar, porém é inegável que as coisas estão mudando. E, ao invés de sumir, o homem cordial está se transformando, e, acredito eu, para melhor.
E então, quando Gilles perguntou a mim e a meus roommates o que esperávamos que fosse a contribuição do Brasil para a sociedade global, tentei explicar que gostaria que nossa cordialidade fosse nossa herança, não aquela cordialidade boba, que é uma ternura cega e indistinta, e nem a cordialidade de Sérgio Buarque, que é essa subjetivação de todo o mundo social, mas sim essa cordialidade que começamos a desenvolver agora, que penso que seja algo como um respeito afetuoso pelo ser humano, mas que não despreze certa objetividade nos laços sociais, coisa que estamos ainda aprendendo. E foi então que uma amiga minha disse: “Acho que o desenho do Capitão Planeta já respondeu a sua questão, Gilles.” Pra quem não se lembra, neste desenho animado, cada personagem representava seu país ou continente e tinha um “poder” que simbolizava sua origem através de um elemento, como o africano tinha o poder da terra, a asiática, que acho que era japonesa, tinha o poder da “água”, a russa tinha o poder do ar, o norte-americano, creia, tinha o poder do “fogo” e o indiozinho brasileiro tinha o poder do “coração”. Gilles não conhecia o desenho, mas aprovou o conceito.
2 comentários:
Quando a vida no Irã passou a ser tão restritiva por conta da guerra e da ascensão de líderes religiosos, grande parte da família (que sempre foi ocidentalizada) do meu pai resolveu fixar de vez residência em Londres, metrópole-multicultural-global-etc (onde há mesmo vários estrangeiros e muitos iranianos). Minha vó ficou bem brava quando meu pai inventou que viria morar aqui no novo mundo (que expressão da hora né?) com a minha mãe. A distância realmente atrapalhou a integração familiar: todo ano recebemos cartões de aniversário e também algumas ligações embaraçosas, já que meu irmão, minha mãe e eu nunca estamos preparados para usar o inglês e meu pai está com seu persa a desejar há bastante tempo – ele mistura com inglês, turco e termina a conversa falando “tchau-tchau”.
Mesmo assim, e minha vó vai ter que me desculpar, eu não tenho dúvida de que meu pai fez a melhor escolha, mesmo que por acaso, quando veio morar aqui.
Ele aprendeu português com ajuda de amigos da minha mãe bem rápido, troca os gêneros mas é bonitinho, desfilou 5 vezes na rosas de ouro, toma muito chopp e é todo entrosado nas festas: ontem quando ele voltou pra casa já bem tarde perguntei porque ele estava com o cabelo ensopado e ele disse baixinho que “estava bailando”; ele tinha ido dar uma palestra para representantes da América Latina da associação em que ele trabalha e terminou numa casa de salsa “dancei com paraguaio, uruguaio, argentino... foi um sucesso”.
Enquanto isso, em Londres, meu tio defende a polícia no caso daquele brasileiro assassinado no metro (“In this country mistakes are never done!”) e o filho dele ta lá, usando o sobrenome materno nos trabalhos da escola para não ser zoado...
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