sábado, 8 de novembro de 2008

Uma ética da ação na periferia

Não sou um grande estudioso de filosofia, mas acredito que um grande número de pensadores já se debruçou sobre a questão do tempo. Esse tempo racional, que existe em nossas mentes e que conta os minutos, as horas, os dias, os meses e os anos, resultado dos movimentos da terra no sistema solar e que impõe uma durabilidade material às coisas e aos seres.
Se refletirmos brevemente sobre as três maiores abstrações de que fazemos uso para administrar o tempo – o passado, o presente e o futuro –, concluiremos, grosso modo, que o passado é um tempo que não mais existe, e o futuro, um tempo que possivelmente ainda vai existir, nenhum dos dois é concreto.
Assim, o futuro sendo o lugar dos projetos e dos planos, e o passado apenas uma referência parcial sobre o que somos e de onde viemos, o único tempo palpável e total que sempre existiu e sempre existirá é justamente o presente.
Além de ser no presente que nos recordamos sobre o passado, valorizamos ou não a tradição e decidimos se damos continuidade ou não ao que já passou, também é no presente que criamos expectativas sobre o porvir, estabelecemos planos e metas que amanhã – quando amanhã se tornar hoje – decidiremos se os levaremos adiante ou estabeleceremos outros.
Desta maneira o presente se transforma em morada natural da ação, pois é apenas agindo que faremos nosso presente pleno, fortalecendo-o ao articular as referências mais propícias do passado, para que possa dar vida a um futuro consistente. Agir é o mais importante. Agir é construir, e sem construção o presente é sempre o mesmo, ou no máximo uma versão degradada do passado.
A religião católica tem reconhecidamente seu nome sujo no cartório quando se trata do tema de transformar o presente em mesmice, oferecendo à sociedade a possibilidade de uma vida plena de paz e alegrias no futuro (leia-se “no além”) praticamente independente das ações no presente, bastando para isso que o indivíduo se arrependesse de seus pecados em seu leito de morte. É conhecido o argumento de Weber de que a ética protestante é mais afeita à ação, mais preocupada com o presente do que a religião que dominou o ocidente por mais de um milênio.
Nos dias de hoje ainda se nota esse marasmo social principalmente na classe média, que historicamente conseguiu se acomodar com grande facilidade, e assim, sem refletir profundamente sobre o passado, vive o presente sem grandes aspirações para o futuro.
Mas diferentemente do que ocorre na classe média, nas classes mais baixas, nas periferias, onde os infortúnios são tantos que, quando se tornam passado, é muito difícil de esquecê-los, e entre aqueles que ainda assim depositam suas esperanças no futuro, percebe-se mais facilmente que o presente é lugar de luta e ação, geralmente com o intuito de se conseguir condições melhores de vida, um projeto nem sempre atingível.
Ainda assim, traz muita satisfação saber que na periferia existe gente tentando articular de maneira sábia tradição e cultura para enxergar no presente sua possibilidade de ação e, desta maneira, construir o futuro.
Recentemente me foi apresentado um grupo de rap da década de 90 chamado MRN (sigla para Movimento e Ritmo Negro), e foi justamente a música “Noite de insônia” do álbum “Só se não quiser” (de 1994) que me chamou a atenção para esta questão. Eis a letra:

São três da madrugada
Sinto que minha mente está totalmente atravessada,
Merda da balada, constantemente me acaba e não consigo dormir,
Uma insônia danada, ansiedade que me abala
Conto os minutos no relógio, o tempo não passa
Reflito e acho que vou explodir,
Para onde ir? O que fazer? Não sei.
Me acalmo e deixo o pensamento correr,
Vou pensar nesta vida que está foda de se viver.
Estou vivendo livremente aos 23.
Sempre sonhando com tudo, lidando com a vida,
Que promete muitas coisas que estou sempre querendo abraçar,
Daqui ou de lá, do jeito que dá,
Usando sempre uma arma,
A força de vontade para caminhar em busca dos objetivos
Que preciso alcançar, sem os quais eu sinto que realmente não dá.

Ou seja, em um momento de crise de sono, o narrador começa a refletir sobre sua vida, “que está foda de se viver”, mas que mesmo assim ele mantém a força de vontade para seguir em frente. Porém, como escreveu Ortega y Gasset :“a divisão mais radical que deve ser feita na humanidade é dividi-la em duas classes de criaturas: as que exigem muito de si mesmas e se acumulam de dificuldades e deveres, e as que não exigem de si nada de especial, para as quais viver é ser a cada instante o que já são, sem esforço para o aperfeiçoamento de si próprias, bóias que vão à deriva ”*:

Ando indignado com os manos que cresceram ao meu lado,
Vejo que estão vivendo a vida somente de brisa, é foda,
Esse fato muito me irrita,
Não constroem nada, não correm atrás de nada,
Preferem aglomerar os sonhos, viver na mesma
Ao invés de terem que enfrentar barreiras,
Não entendo como vivem assim, pararam no tempo, eu lamento.
Oh, Senhor! Eu preciso dar continuidade ao meu nascimento
Todos os dias, a todo momento, a todo momento.

E o passado se mostra importante não apenas como referência histórica geral, mas principalmente através da memória de si mesmo, que obviamente se torna mais complexa de acordo com a complexidade de nosso presente, como enfrentamos os problemas e decepções e mesmo assim seguimos em frente (lutando, e não empurrando com a barriga). Esse tipo de memória seria responsável pelo nosso amadurecimento:

Relembro do passado, dos dias de 89
Eu com 19 e já sinto uma certa saudade,
A vontade de voltar atrás, mas não dá,
Foi um tempo que vivi com muita intensidade,
E que hoje me traz muitas saudades,
Dos amigos que marcaram época.
De alguém que me marcou com palavras, gestos e atitudes sinceras,
Aquela puta se foi e nem um tchau me deu,
Me deixou no tempo, foi, desapareceu,
E ela nunca mais voltou,
Pode crer, ela nunca mais voltou.
É difícil entender como tudo se deu, valeu,
Foi parte da minha vida que hoje em dia me faz falta,
Muita falta,
Um ótimo episódio que infelizmente não tem volta
Considero esse tempo uma parte valiosa da minha história,
E que está levando uma boa vantagem na disputa com o presente
Que está foda de se viver,
Ultimamente tenho percebido vários manos, fulanos, otários,
Querendo atrasar meu lado,
Tentando apagar o meu valor
Vagabundos me olhando com raiva,
Afim de me armar uma grande cilada,
Mas mesmo assim eu Nil, vou que vou,
Não, não, comigo não,
Fodo quem tenta me foder,
Isso tem sido necessário pra se sobreviver.

Walter Benjamin notou uma característica na experiência humana que é melhor expressa na língua alemã, para a qual esse conceito está associado a duas palavras: Erlebnis e Erfahrung. Enquanto o primeiro exprime uma experiência que se vive como algo indiferente e sem grande impacto sobre nossa pessoa – o tipo de experiência que se tem a todo o momento quando se vive apenas por viver –; Erfahrung expressa a experiência que nos envolve de maneira tal que, segundo Benjamin, conecta certos aspectos de nosso passado individual com “material do passado coletivo”**. É esse tipo de experiência que nos amadurece e emancipa enquanto indivíduos que estão conectados pela possibilidade da experiência humana realizada. Neste trecho citado da música temos um exemplo bem conhecido de experiências que marcam e que são universais, que são as experiências amorosas; e mais uma vez o narrador demonstra que o presente está difícil de ser vivido, com inimigos e percalços no caminho, mas que mesmo assim é necessário seguir em frente (mesmo que isso implique uma total falta de altruísmo).
Vou deixar aqui o resto da letra (ainda que meu foco fosse as passagens anteriores):

Paro pra pensar nestas pessoas em busca de uma explicação,
E começo a perceber que todas elas revelam uma pobreza de espírito que não acredito
Oh meu Deus eu dou risada de tudo isso
Esse mundo realmente é esquisito

Confesso que tenho andado meio confuso
Em ter que conhecer o outro lado do mundo
Figuras formam no subconsciente
E as noites se transformam em pensamentos deprimentes
Eu penso que tudo um dia irá se acabar,
E como será o meu estágio em outro lugar?
Marvin, Marley, Hendrix,Tosh e meu velho mano DG,
Meu velho mano DG, se foram
E não mandaram notícias de lá.
Esse caminho doloroso é foda, não consigo me encaixar,
Teorias, milhares conheço,
Se o outro lado é mais belo, isso já não sei,
Mas um dia infelizmente terei que ir pra lá, pra depois voltar,
Esse ciclo é verdadeiro, eu to ligado que não vou escapar.
Quando eu penso que da vida a gente leva
Somente a vida que a gente leva,
Fico zoado, é tudo muito complicado,
Mas uma coisa é certa,
MRN, uma sigla, meu passado, meu presente, meu futuro,
Que carregarei comigo por toda minha vida
Como diz Jobim, “até na despedida”.
Acho que a porra dessa insônia tá ficando foda,
Boa noite São Paulo, ainda estou acordado, ainda estou acordado.

Bem, sei que já me delonguei por demais, porém, considerando o que já foi dito, que o presente é o tempo que mais importa, que intercala duas abstrações (passado e futuro), e que muitas vezes as pessoas não têm consciência disso, vou concluir esse longo pensamento com uma citação de um filósofo do século VII d.c., chamado Sêneca, e que escreveu esse belo libreto sobre como se viver a boa vida (e que implica valorizar seu presente):

Comporta-te assim, meu Lucílio, reivindica o teu direito sobre ti mesmo e o tempo que até hoje foi levado embora, foi roubado ou fugiu, recolhe e aproveita esse tempo. Convence-te de que é assim como te escrevo: certos momentos nos são tomados, outros nos são furtados e outros ainda se perdem no vento. Mas a coisa mais lamentável é perder tempo por negligência. Se pensares bem, passamos grande parte da vida agindo mal, a maior parte sem fazer nada, ou fazendo algo diferente do que se deveria fazer.
Podes me indicar alguém que dê valor ao seu tempo, valorize seu dia, entenda que se morre diariamente? Nisso, pois, falhamos: pensamos que a morte é coisa do futuro, mas parte dela é coisa do passado. Qualquer tempo que já passou pertence à morte.
Então, caro Lucílio, procura fazer aquilo que me escreves: aproveita todas as horas; serás menos dependente do amanha se te lançares ao presente. Enquanto adiamos, a vida se vai. Todas as coisas, Lucílio, nos são alheias; só o tempo é nosso. A natureza deu-nos posse de uma única coisa, fugaz e escorregadia, da qual qualquer um que queira pode nos privar. E é tanta a estupidez dos mortais que, por coisas insignificantes e desprezíveis, as quais certamente se podem recuperar, concordam em contrair dívidas de bom grado, mas ninguém pensa que alguém lhe deva algo ao tomar o seu tempo, quando, na verdade, ele é único, e mesmo aquele que reconhece que o recebeu não pode devolver esse tempo de quem tirou.
Talvez me perguntes o que faço para te dar esses conselhos. Eu te direi francamente: tenho consciência de que vivo de modo requintado, porém cuidadoso. Não posso dizer que não perco nada, mas posso dizer o que perco, o porquê e como; e te darei as razões pelas quais me considero miserável. No entanto, a mim acontece o que ocorre com a maioria que está na miséria não por culpa própria: todos estão prontos a desculpar, ninguém a dar a mão.
E agora? A uma pessoa para a qual basta o pouco que lhe resta, não considero pobre. Mas é melhor que tu conserves todos os teus pertences, e começarás em tempo hábil. Porque, como diz um sábio ditado, é tarde para poupar quando só resta o fundo da garrafa. E o que sobra é muito pouco, é o pior. Passa bem!***

Faço dele minhas palavras. Aja no presente e terá um passado com conteúdo e a única possibilidade de um futuro melhor.

*Ortega y Gasset, José. “A rebeliao das massas”. Editora Martins Fontes, São Paulo, 2007.
**Benjamin, Walter. “Obras escolhidas III – Charles Baudelaire”. Editora Brasiliense. 2004.
***Sêneca, Lúcio Anneo. "Aprendendo a viver". Editora LP&M. São Paulo, 2008.

2 comentários:

jamers disse...

Que lindo texto! Lembrei logo de uma entrevista em que o Foucault fala da diferença entre a ética grega (ethos como porte, maneira de caminhar, hábito, maneira de fazer visível para os outros) grega e a cristã, olha que da hora, tem bastante a ver: "Com o cristianismo, vimos se inaugurar lentamente, progressivamente, uma mudança em relação às morais antigas, que eram essencialmente uma prática, um estilo de liberdade. Naturalmente, havia também certas normas de comportamento que regravam a conduta de cada um. Porém, na Antiguidade, a vontade de ser um sujeito moral, a busca de uma ética da existência eram principalmente um esforço para afirmar a sua liberdade e para dar à sua própria vida uma certa forma na qual era possível se reconhecer, ser reconhecido pelos outros e na qual a própria posteridade podia encontrar um exemplo.
Quanto a essa elaboração de sua própria vida como uma obra de arte pessoal, creio que, embora obedecesse a cânones coletivos, ela estava no centro da experiência moral, da vontade moral da Antiguidade, ao passo que, no cristianismo, com a religião do texto, a idéia de uma vontade de Deus, o princípio de uma obediência, a moral assumia muito mais a forma de um código de regras (apenas algumas práticas ascéticas eram mais ligadas ao exercício de uma liberdade pessoal).
Da Antiguidade ao cristianismo, passa-se de uma moral que era essencialmente a busca de uma ética pessoal para uma moral como obediência a um sistema de regras. Se me interessei pela Antiguidade foi porque, por toda uma série de razões, a idéia de uma moral como obediência a um código de regras está desaparecendo, já desapareceu. E a esta ausência de moral corresponde, deve corresponder uma busca que é aquela de uma estética da existência."

Charolastra disse...

Super pertinente essa entrevista. É a linha de análise crítica da moral ocidental que vem desde Nietzsche. E o mais interessante é que no pensamento foucaultiano (se é que esse nome existe), ele passa de uma análise dos poderes a que somos naturalmente submetidos para, uma vez que temos conciência destes poderes, possamos criar estratégias de ação que possibilitem o desenvolvimento de uma identidade menos oprimida e uma subjetividade mais consciente. Esse seria o passo da estética da existência: ter maior consciência de sua subjetividade, transformando sua existência em uma obra de arte.